Choro | Universo Paralelo

Choro

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Choro convulsivamente feito uma criança. Choro convulsivamente por estar desfazendo-me de coisas que me fariam lembrá-lo. Choro por saber que tenho que me conformar em não tê-lo junto a mim. Choro por não ter sido amado como desejei. Choro por minha história encantada não ter tido um final feliz. 

Trouxe comigo para Minas algumas coisas do Negro Gato que não foram possíveis enviar quando ele foi embora, as quais prometi enviar muitas vezes, mas por falta de $ sempre adiei o envio. Hoje postarei nos correios as últimas coisas dele que ainda estão comigo, uma bíblia e um quadro dos Beatles em carvão - a bíblia ele quis que ficasse comigo, como um presente, mas não posso aceitar, não iria ter nenhuma utilidade e seria mais um motivo para lembrá-lo todas às vezes quando eu for tirar a poeira dos meus livros. Já tenho lembranças suficientes gravadas no peito e na alma. O que farei hoje nos correios pode parecer um ato simples às vistas de outros, mas estará carregado de emoções e sentimentos latentes e por mais que eu os queira mortos, insistem em permanecerem vivos.

 Passei toda a semana planejando este envio. Não esta sendo fácil, assim como não foi quando tive que enviar suas roupas, sapatos, cadernos e livros deixados pelo N.G na casa em que morávamos no sul há pouco mais de um ano atrás, quando seu pai faleceu e ele não pode voltar para buscar. À época foi um ritual semelhante à separação dos pertences de um familiar que morreu para doação após o enterro - demorei quase um mês para separar tudo e colocar em uma caixa e levar até os correios. Um mês chorando convulsivamente todas às vezes que tive de colocar algo dele dentro da caixa. Era como se eu estivesse colocando um pedaço de mim ali dentro. Quanto mais tempo demorava, mais tempo manter-me-ia próximo a qualquer objeto que recordava-o. Foi um autoflagelo necessário e importante para que eu seguisse em frente e superasse a ausência dele no meu quotidiano. Eu não o veria mais, ou não saberia quando o veria, e junto com ele estava indo todos as minhas idealizações do meu conto de fadas pessoal. Eu estava vivendo um momento de "certa plenitude com o N.G, a cisão foi muito dolorosa. Hoje sei que não o verei. Isto é fato decretado por ele, e estou tentando também decretar. Os últimos meses antes da morte do pai do N.G estávamos nos "dando bem", parecia que todo o pesadelo e sofrimento dos meses anteriores após me apaixonar por ele haviam passado. Morávamos sós naquela casa que foi a república e onde tudo começou.

Dominus

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Poeira cósmica expressa no espaço-tempo.O que sou hoje, serei amanhã.

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