Universo Paralelo: Meus dramas
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Inside P's head: doubts & suspicious truth por  Mathieu Bernard-Martin


Ontem lendo um poste antigo e ao responder um comentário em um poste recente me deparei diante de uma situação que dentro da lógica linear não faria sentido, entretanto esqueci-me de um porém, sou humano e a última coisa que vai existir na vida de humano, é linearidade de sentimentos e pensamentos. Posso hoje estar dotado de clareza sobre a vida, demonstrando grande maturidade, mas ao reler este poste, concluo que amanhã posso não estar.

Qual a razão por me encontrar em dúvidas, incertezas e questionamentos, os quais já os respondi com total convicção e clareza tempos atrás? Porque ao observar aquilo que fora escrito, não teria razão para tê-los novamente. Nada fora escrito da boca para fora. Onde está aquele Gustavo? Não sei se a depressão que se instalou há pouco mais de um ano me fez estar no mar de dúvidas em que me encontro. Não consigo viver com leveza, porque os questionamentos se fazem presente mais do que tudo. 

Onde fica a maturidade de um ano atrás? A maturidade se esconde em alguns momentos? Parece que tenho 15 anos novamente. A vida será sempre assim? Sempre estarei no abismo cíclico de provações e dúvidas todas as vezes que em que sofrerei perdas e problemas maiores se instalarem? A onde está a leveza do viver experimentada e palpável que tive em minhas mãos? A terei novamente? Não sei! Não sei! E não sei!

Os adultos mentem, quando dizem que depois dos dezoito as dúvidas acabam. Mentira! Não acabam, estarão ai durante toda a vida. É o que parece...

Volta Gustavo dos 22, eu preciso de você.


 Aos 22 eu descobri que nem tudo precisa ser compreendido, viver satisfaz qualquer necessidade de compreensão. Esse é o sentido da vida, VIVER. 
Aos 22 anos caminho livre, liberto de muitas amarras, outros nós ainda esperam para serem desatados. Caminho com poucos pesos sobre mim, confiante, mas temoroso.


 



Esse post é uma continuação do post: Choro, que foi antecedido por esses: Tempo, Apenas seguirei, I can do It! e  Fim do dia.  É  uma tentativa de unir algumas pontas e dar sentido aos post anteriores e fazer uma análise de um período  da minha vida. Sou virginiano, e pessoas desse bendito signo tem hábitos como esse, uma necessidade visceral de passar quase tudo pelo crivo da razão, mesmo que "desliguem" essa característica por algum período em algum momento irão estar a analisar o que passou.

Depois de ter enviado as últimas coisas do Nego Gato que estavam comigo, lhe enviei uma mensagem o informando que eu havia enviado seus pertences. Não obtive resposta e não desejei tê-la. Vinte dias depois meu celular apita e vejo que tinha uma mensagem dele. Nesse momento a adrenalina invadiu meu sangue, meu coração disparou e meu corpo estremeceu. Pensei duas vezes se abriria ou não a mensagem. Parei por um instante e me questionei o quanto seria normal depois de três anos eu sentir meu corpo estremecer, sentir um frio na barriga por causa dele, uma pessoa que está a quatro mil quilômetros de distância e que não vejo a há quase dois anos. Abri e li. Ele pedia umas fotos que tiramos com alguns surfes do Couchsurfing. Eu disse que as mandaria. Três horas mais tarde eu resolvi romper minha promessa e perguntei como ele estava e desde então nos falamos diariamente, mantemos uma relação de carinho, cuidado e confidências, coisa que o tempo e distância não alteraram. Tomo todo cuidado para não questioná-lo em relação a sentimentos e sobre sua orientação sexual. Cada vez mais consigo livrar-me dos sentimentos de dependência em relação a ele, deixo sobressair o afeto e carinho que ainda sinto. Poderia dizer que é amor, mas ele foi único que tive sentimentos intensos e afeto, diferente do que eu sinto por familiares e por amigos. Só saberei como o tempo.



    




 Antecedentes:


2011 


Eu passei no vestibular. Sai de Minas Gerais e fui morar em Foz do Iguaçu, extremo oeste do estado do Paraná. Eu tinha dezoito anos e inúmeras inquietações que trouxe da adolescência para a vida adulta, uma delas era a minha orientação sexual. Vivi algumas experiências com um primo na adolescência, mas elas não foram suficientes convencer-me que sou gay. Eu acreditava que eu poderia encerrar essa dúvida se eu transasse como uma mulher. (Na minha cabeça de quatro anos atrás, uma ereção seria o suficiente para dizer que eu não era gay.) Durante o primeiro semestre de 2011 morei em uma residência universitária, um ambiente open-minded, cheio de gays e lésbicas e vários casais homos que passavam uma imagem positiva. (Eram tantos, que diziam que seria preciso criar cotas para héteros) Viver em esse ambiente contribuiu para deixar mais latente minha dúvida, chegando ao limite do insuportável. No segundo semestre essa inquietação foi tão grande, que procurei a psicóloga da universidade para sanar minha dúvida. A resposta que tive foi: 'Se você veio até a mim com essa dúvida é porque você tem a resposta'. Depois desse dia eu passei a acreditar que talvez eu fosse bissexual. (Muitos gays passam por essa fase, como uma tentativa de atenuar a sua homossexualidade quando essa não é bem resolvida). No segundo semestre conheci Nego Gato, quando passamos a fazer parte do mesmo grupo de amigos. Nesse tempo descobrimos várias coisas em comum, desenvolvemos uma certa proximidade, a ponto de todas as vezes que saíamos juntos e eu ficava bêbado ele sempre me levava para o meu quarto e me colocava para dormir. Nas férias de dezembro a março nos falamos por Facebook quase diariamente. Passamos toda as férias conversando por internet e nos aproximamos mais ainda, ao ponto que eu consegui dizer para ele que eu era gay. Nesse ponto me dei conta que eu não tinha nada de bissexual e que eu era gay. Assisti muitos filmes e documentários com temática homossexual, ajudaram muito no meu processo de aceitação. Ele foi a primeira pessoa que eu consegui dizer claramente isso, mesmo que tenha sido por Facebook. Desse dia em diante não tive mais nenhuma dúvida quanto a essa questão. (Ele me disse um tempo depois que nesse período eu dei entender várias vezes que estava interessando nele, se fiz isso, não percebi mesmo porque eu jurava que ele era hétero. Nessa época meu gaydar estava sendo fabricado.

    




2012

Em março de 2012 quando retornei das minhas férias O N. G me contou que estava apaixonado por um amigo em comum nosso. Não vi nada de anormal. Eu acreditava/acredito na possibilidade de ocorrer isso, existem pessoas se apaixonam uma pelas outras independentes do sexo ou orientação sexual. (Na minha santa inocência ele não era gay.) Uma semana depois fomos participar de um trote com calouros do meu curso no semáforo parra conseguir uns trocos para a calourada, nessa época estávamos morando em moradias diferentes, ele aproveitou que eu morava perto do lugar do trote e passou no meu quarto para tomar banho e tirar sujeira. Chegando ao quarto ele tentou me beijar, mas eu resisti, não tinha coragem suficiente para aquilo. Nunca antes tinha beijado um menino. Meu coração batia a mil, minha excitação aumentava. Ficamos num jogo de olhares por alguns minutos, até que ele me agarrou e me beijou, foi o primeiro beijo que dei num menino e representou o ápice do meu processo de aceitação. Essa foi a primeira vez que fiquei com um menino sem resultar em nenhum sentimento de culpa e nojo. Dois meses depois desse ocorrido, montamos uma república e fomos morar juntos. O N.G continuava apaixonado pelo nosso amigo, mas não tinha coragem suficiente para se declarar. Tentei encorajá-lo de todas as formas a fazê-lo, mas ele não quis. Nesse tempo continuamos ficando, mas desde o início eu sempre deixei claro que queria apenas sexo, mesmo sabendo o quão perigoso poderia ser esse tipo de envolvimento. 

Quatro meses depois de estarmos morando juntos, comecei a sentir sua falta quando não dormíamos juntos. Um interesse repentino apareceu, passei a sentir ciúmes quando ele estava próximo do nosso amigo. Percebi que tinha me apaixonado, estava de quatro por ele e não tinha volta. Por mais que eu tentasse aniquilar qualquer sentimento. Era impossível. Acordávamos juntos, dormíamos juntos e víamos um ao outro durante o dia na faculdade. Fui arremessado da minha zona de conforto, onde tudo era passado pelo crivo da razão. Deste momento em diante passei a ser governado pelas minhas emoções. Eu não me reconhecia, parecia um zumbi, passava boa parte do meu dia pensando nele. Diante dessa situação. Lhe disse que estava apaixonado. Ele me disse que não podia fazer nada, pois não sentia o mesmo, pois continuava apaixonado pelo nosso amigo. 

(Desde os 16 anos entrei num processo de auto-repressão e auto-anulação, virei um assexuado, apaixonar-me por alguém me permitiu sentir-me vivo).


Nesse tempo de paixão desenfreada aprendi a lidar com as minhas emoções e principalmente controlá-las sem precisar negá-las com ajuda de uma psicóloga. Aprendi a ler um poema e senti-lo e entendê-lo foras das regras literárias. Aprendi a escutar e sentir a emoção de uma música. Aprendi a escrever em primeira pessoa, esse talvez seja ganho maior conquistado com a terapia. Quando eu escrevia sobre mim, sempre escrevia em terceira pessoa; uma forma encontrada para reprimir minhas emoções. Tornei-me uma pessoa emotiva. Nos meses que seguiram convivi com uma dúvida constante, 'se ele gostava de outro por que ele estava sempre comigo? Eu era a pessoa quem ele sempre buscava quando estava perdido ou precisando de alguém para ouvi-lo. (ainda o faz) Passei um bom tempo tentando entender isso.

Vivemos juntos até outubro com as idas e vindas e sempre tentando por um fim na nossa “relação”, que nunca teve nome, ou formalidade alguma. Em outubro ele saiu da república, mas como tinha ido para uma próxima a minha dormia quase todas as noites comigo. Dois meses depois ele voltou para moramos juntos até fevereiro de 2013. Nesse tempo nos aproximamos mais ainda, vivíamos como um casal de namorados, embora ele deixasse claro que não sentia nada por mim. Eu já não sentia aquela paixão enlouquecedora, tinha um sentimento que não sei caracterizar, que surgiu da nossa convivência, uma preocupação mutua, um carinho suave e sublime, dormíamos na mesma cama sem precisa fazer sexo.


    





2013 -

Em Fevereiro de  o pai do N.G morreu, ele viajou para o enterro e decidiu ficar com a mãe em Manaus. Até setembro de 2013 mantivemos contato por internet. A distância o fez ver que ele gostava de mim. Tentamos terminar nosso contanto para facilitar o esquecimento para ambos. Tínhamos um elemento a nosso favor, a distância. Todas as tentativas de contar o vínculo foram infrutíferas, sempre voltamos a nos falar. Em setembro ele disse que faria um trabalho voluntário no interior do Amazonas. Um tempo depois descobrir que essa ida a selva incluía um processo de auto anulação e de renúncia a sua orientação se sexual e tudo e todos que fizeram parte da vida dele durante os dois anos que ele se afirmou como gay, nesse pacote eu estava incluso. Fui varrido  de sua vida  de uma hora para outra, sem nenhuma explicação. 

Não consigo entender como uma pessoa que teve um relacionamento de cinco anos com um primo na adolescência, na vida adulta apaixonou-se duas vezes por homens consegue acreditar que é possível modificar sua orientação sexual, além disso é uma pessoa esclarecida. Até Abril de 2014 não tive mais nenhuma notícia, me "joguei" por completo na vida, numa tentativa de esquecer ou bloquear qualquer lembrança que fizesse me lembrar do  N.G  Em   Abril  recebi um e-mail dele pedindo uma tentativa de contato sem nenhuma explicação que justificasse o silêncio dele por tanto tempo. Nesse ponto eu estava indiferente e descrente quanto a tudo, me tornei uma pessoa fria. Conversamos sobre amenidades por uma semana, até que não me contive e o questionei sobre o porquê dele ter dado as caras. Ele respondeu que por mais que ele tentou reprimir-se, era impossível. Eu interpretei essa atitude, como um sinal de que ele ainda gostava de mim de alguma maneira, isso foi o suficiente para eu alimentar inúmeras expectativas, mas o que eu não esperava era que isso  me frustraria e mais tarde eu sofreria, como sofri no ano de 2012. Por mais que ele se reconheça como gay, ele disse que por causa da religião dele, nunca terá ter nenhuma relação homossexual.

Hoje, me sinto livre por conseguir escrever sobre isso sem sentir um aperto no peito.



    






Deitado, olhando para o teto, embalado pela voz suave e lúdica de Natalia  Lafoucarde tomo coragem para ir buscar e abrir  o resultado de uma tomografia. Um mês, sem o órgão que mais gosto funcionando perfeitamente. Um mês, de crises sucessivas de enxaqueca. Não poder ler, escrever, pensar a todo vapor é uma tortura. Sempre acreditei que em toda situação ruim é possível extrair algo positivo. Nesse um mês de molho repensei hábitos, situações, me motivei. Resolvi dar um basta nessa crise depressiva, que pouco a pouco toma conta de mim, desde que voltei para casa dos meus pais. Nesse tempo, descobri que as oito, dez horas que eu  passava na frente uma tela de computador  só fizeram piorar meu quadro. Esse desequilíbrio químico, chamado enxaqueca me mostrou isso. Solo me queda mantener la calma y seguir adelante.
               

Spotify é vida!






Este mês de Setembro é muito mais que o mês do meu aniversário, será lembrando por um acontecimento marcante para mim. 
Consegui após três anos e meio chegar ao fim de um livro. Li o romance O quinze, de Raquel de Queiroz. (Amo o romance regionalista) 
Desde que comecei minha vida acadêmica até agora nunca consegui terminar a leitura de um livro escolhido por gosto, em meio as leituras obrigatórias, trabalhos, provas e noites sem dormir, a leitura por prazer sempre ficou em último plano, quando sobrava último plano. Perdi a conta da quantidade de livros que peguei na biblioteca e não passei do segundo capítulo. Este é um drama enfrentando por muito universitários, sempre escutei esse descontentamento de amigos e conhecidos. 
Ler sempre foi meu passatempo preferido. Lembro que aprendi a ler após dois meses em que entrei na escola, desde então a leitura se fez presente na minha vida. Agradeço a minha mãe por ter incentivado esse hábito em mim. Sempre, desde pequeno a vi lendo algo. Lembro, que aos cinco anos eu já chorava querendo ir para escola. 
Viver esse hiato de quase quatro anos foi uma das maiores torturas. Espero muito, que isso não se repita na próxima graduação que eu começar. Sim, eu sou desses que precisa passar por alguns cursos até encontrar o que considera a escolha certa. 





Choro convulsivamente feito uma criança. Choro convulsivamente por estar desfazendo-me de coisas que me fariam lembrá-lo. Choro por saber que tenho que me conformar em não tê-lo junto a mim. Choro por não ter sido amado como desejei. Choro por minha história encantada não ter tido um final feliz. 

Trouxe comigo para Minas algumas coisas do Negro Gato que não foram possíveis enviar quando ele foi embora, as quais prometi enviar muitas vezes, mas por falta de $ sempre adiei o envio. Hoje postarei nos correios as últimas coisas dele que ainda estão comigo, uma bíblia e um quadro dos Beatles em carvão - a bíblia ele quis que ficasse comigo, como um presente, mas não posso aceitar, não iria ter nenhuma utilidade e seria mais um motivo para lembrá-lo todas às vezes quando eu for tirar a poeira dos meus livros. Já tenho lembranças suficientes gravadas no peito e na alma. O que farei hoje nos correios pode parecer um ato simples às vistas de outros, mas estará carregado de emoções e sentimentos latentes e por mais que eu os queira mortos, insistem em permanecerem vivos.

 Passei toda a semana planejando este envio. Não esta sendo fácil, assim como não foi quando tive que enviar suas roupas, sapatos, cadernos e livros deixados pelo N.G na casa em que morávamos no sul há pouco mais de um ano atrás, quando seu pai faleceu e ele não pode voltar para buscar. À época foi um ritual semelhante à separação dos pertences de um familiar que morreu para doação após o enterro - demorei quase um mês para separar tudo e colocar em uma caixa e levar até os correios. Um mês chorando convulsivamente todas às vezes que tive de colocar algo dele dentro da caixa. Era como se eu estivesse colocando um pedaço de mim ali dentro. Quanto mais tempo demorava, mais tempo manter-me-ia próximo a qualquer objeto que recordava-o. Foi um autoflagelo necessário e importante para que eu seguisse em frente e superasse a ausência dele no meu quotidiano. Eu não o veria mais, ou não saberia quando o veria, e junto com ele estava indo todos as minhas idealizações do meu conto de fadas pessoal. Eu estava vivendo um momento de "certa plenitude com o N.G, a cisão foi muito dolorosa. Hoje sei que não o verei. Isto é fato decretado por ele, e estou tentando também decretar. Os últimos meses antes da morte do pai do N.G estávamos nos "dando bem", parecia que todo o pesadelo e sofrimento dos meses anteriores após me apaixonar por ele haviam passado. Morávamos sós naquela casa que foi a república e onde tudo começou.

Hoje faz exatos 17 dias que não falo com o Negro Gato, tenho sido forte e persistente na promessa de nunca mais lhe falar. Nunca é uma palavra muito forte pelo caráter imprevisível desta relação. Como mencionei em outro post, todas as tentativas de colocarmos um ponto final até agora não deram resultado, os pontos finais não foram pontos finais, mas cisões, as quais insistiam em se ramificar e integrar-se novamente. Não posso permitir que ele me trate como um brinquedo que esteja sempre ao alcance em uma prateleira, que brinque o quanto queira e quando "enjoe" devolva ao seu lugar. 
Não posso permitir que minha vida seja manipulada dessa forma por alguém que incapaz é de se posicionar como um ser humano autônomo, que tenha bases imutáveis na sua personalidade, que não flutue ao léu das vontades de quem o cerca. Eu escolhi não querer mais essa relação unilateral. Em dias frios e cinzentos como hoje cumprir essa promessa é algo sobre-humano, a saudade de coisas que eu não vivi rondam meu pensamento insistentemente. Nessa madrugada tive um surto, uma vontade incontrolável de fazer contato e rastejar pela atenção dele, como fiz costumeiramente por muito tempo, mas serei forte. I can do it!


Não sei se a conversa de agora a noite será a última que terei com o Negro Gato, se este será mesmo o FIM. Fim que já decretamos inúmeras vezes. 


Continuamos a conversa de ontem - continuação motivada pela frase de status que coloquei no meu perfil do Whatsapp, "aceita que dói menos"- segundo ele foi uma indireta para ele, mas não foi, era apenas uma frase motivacional carregada de significados porque eu precisava de um ponto de partida para começar o dia, uma forma de  "aliviar" o sofrimento do dia anterior. Já disse ao N.G inúmeras vezes que meu mundo não gira ao redor do mundo dele, embora sofra com sua força gravitacional. Considero que a frase cai como uma luva para ele, pois por motivos religiosos o N.G optou por não praticar sua homossexualidade, e aceitar sua condição homossexual doerá menos, evitará uma série de sofrimentos futuros.

A minha dificuldade para entender a renúncia do N.G à sua homossexualidade foi motivo para nosso último atrito, o saturei com inúmeras perguntas relacionadas à sua renúncia, e diante da sua negação em me dá respostas, misturado à minha carga de sentimentos reprimidos por ele, eu não pude manter diálogos que não levassem sempre a esse assunto. Agora, vejo essa minha insistência como uma busca frenética por elementos que me deem esperança para o meu "sentimento", o amor que sinto por ele. Esperança que poderia demonstrar um futuro sem o sofrimento do presente, onde meu conto de fadas pessoal se torne realidade. É uma atitude egoísta, mas sou humano, estou fadado a sentir sentimentos "mesquinhos" e confesso, que estou cansado de maquiar isso em mim, de fazer papel de bonzinho, de não me permitir senti-los. Fui ensinado quando criança que os humanos devem ter apenas sentimentos nobres, mas a vida me mostrou o contrário, mostrou o misto de nobreza e podridão que nos constitui.

Não sei lidar com essa situação. A renúncia dele à sua condição homossexual é o mesmo que soterrar qualquer esperança que eu posso ter de um futuro relacionamento, esperança que eu tento matar há muito tempo. Parafraseando um professor de filosofia do ensino médio, que sempre dizia em suas aulas que a esperança não é a última que tem que morrer, mas a primeira. Mas percebo que isso não se aplica quando se trata de questões sentimentais, porque é difícil matar a esperança e seguir adiante. Perdido no futuro incerto dessa "relação", a velha e conhecida incerteza mostra sua cara e não sei lidar com ela. O que me resta é seguir em frente e conviver com ela, na espera de de dias melhores providos pelo "tempo". Todo o sentimento de Bethânia é a síntese poética do "meu momento".
  
        




Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.
Essa sensação de dormência invade meu corpo outra vez, mais uma vez sinto um aperto no peito, meu estômago revira. Não posso dormir, meu cérebro não para, tenta a todo custo processar o que escutei horas atrás. Palavras que tornam uma série de questionamentos anteriores claros. Um emaranhado de expectativas que criei desmorona novamente. Já estou acostumado a essa sensação, já a senti inúmeras outras vezes, durante esses três anos de relação conturbada e indefinida com o Negro Gato. Ele me disse que nunca seremos nada, que nunca iremos transpor a relação presencial que tivemos durante pouco mais de um ano quando dividíamos quarto em uma república. 'Não há motivos para um reencontro'. O questionei se esse nunca era motivado pela religião dele. Ele disse que sim. Retorno ao ponto inicial, se a máxima que o tempo cura tudo for verdade, espero que não tarde muito, já se vão dois anos que espero desesperadamente o tempo agir.