Antecedentes:
2011
Eu passei no vestibular. Sai de Minas Gerais e fui morar em Foz do Iguaçu, extremo oeste do estado do Paraná. Eu tinha dezoito anos e inúmeras inquietações que trouxe da adolescência para a vida adulta, uma delas era a minha orientação sexual. Vivi algumas experiências com um primo na adolescência, mas elas não foram suficientes convencer-me que sou gay. Eu acreditava que eu poderia encerrar essa dúvida se eu transasse como uma mulher. (Na minha cabeça de quatro anos atrás, uma ereção seria o suficiente para dizer que eu não era gay.) Durante o primeiro semestre de 2011 morei em uma residência universitária, um ambiente open-minded, cheio de gays e lésbicas e vários casais homos que passavam uma imagem positiva. (Eram tantos, que diziam que seria preciso criar cotas para héteros) Viver em esse ambiente contribuiu para deixar mais latente minha dúvida, chegando ao limite do insuportável. No segundo semestre essa inquietação foi tão grande, que procurei a psicóloga da universidade para sanar minha dúvida. A resposta que tive foi: 'Se você veio até a mim com essa dúvida é porque você tem a resposta'. Depois desse dia eu passei a acreditar que talvez eu fosse bissexual. (Muitos gays passam por essa fase, como uma tentativa de atenuar a sua homossexualidade quando essa não é bem resolvida). No segundo semestre conheci Nego Gato, quando passamos a fazer parte do mesmo grupo de amigos. Nesse tempo descobrimos várias coisas em comum, desenvolvemos uma certa proximidade, a ponto de todas as vezes que saíamos juntos e eu ficava bêbado ele sempre me levava para o meu quarto e me colocava para dormir. Nas férias de dezembro a março nos falamos por Facebook quase diariamente. Passamos toda as férias conversando por internet e nos aproximamos mais ainda, ao ponto que eu consegui dizer para ele que eu era gay. Nesse ponto me dei conta que eu não tinha nada de bissexual e que eu era gay. Assisti muitos filmes e documentários com temática homossexual, ajudaram muito no meu processo de aceitação. Ele foi a primeira pessoa que eu consegui dizer claramente isso, mesmo que tenha sido por Facebook. Desse dia em diante não tive mais nenhuma dúvida quanto a essa questão. (Ele me disse um tempo depois que nesse período eu dei entender várias vezes que estava interessando nele, se fiz isso, não percebi mesmo porque eu jurava que ele era hétero. Nessa época meu gaydar estava sendo fabricado.
2012
Em março de 2012 quando retornei das minhas férias O N. G me contou que estava apaixonado por um amigo em comum nosso. Não vi nada de anormal. Eu acreditava/acredito na possibilidade de ocorrer isso, existem pessoas se apaixonam uma pelas outras independentes do sexo ou orientação sexual. (Na minha santa inocência ele não era gay.) Uma semana depois fomos participar de um trote com calouros do meu curso no semáforo parra conseguir uns trocos para a calourada, nessa época estávamos morando em moradias diferentes, ele aproveitou que eu morava perto do lugar do trote e passou no meu quarto para tomar banho e tirar sujeira. Chegando ao quarto ele tentou me beijar, mas eu resisti, não tinha coragem suficiente para aquilo. Nunca antes tinha beijado um menino. Meu coração batia a mil, minha excitação aumentava. Ficamos num jogo de olhares por alguns minutos, até que ele me agarrou e me beijou, foi o primeiro beijo que dei num menino e representou o ápice do meu processo de aceitação. Essa foi a primeira vez que fiquei com um menino sem resultar em nenhum sentimento de culpa e nojo. Dois meses depois desse ocorrido, montamos uma república e fomos morar juntos. O N.G continuava apaixonado pelo nosso amigo, mas não tinha coragem suficiente para se declarar. Tentei encorajá-lo de todas as formas a fazê-lo, mas ele não quis. Nesse tempo continuamos ficando, mas desde o início eu sempre deixei claro que queria apenas sexo, mesmo sabendo o quão perigoso poderia ser esse tipo de envolvimento.
Quatro meses depois de estarmos morando juntos, comecei a sentir sua falta quando não dormíamos juntos. Um interesse repentino apareceu, passei a sentir ciúmes quando ele estava próximo do nosso amigo. Percebi que tinha me apaixonado, estava de quatro por ele e não tinha volta. Por mais que eu tentasse aniquilar qualquer sentimento. Era impossível. Acordávamos juntos, dormíamos juntos e víamos um ao outro durante o dia na faculdade. Fui arremessado da minha zona de conforto, onde tudo era passado pelo crivo da razão. Deste momento em diante passei a ser governado pelas minhas emoções. Eu não me reconhecia, parecia um zumbi, passava boa parte do meu dia pensando nele. Diante dessa situação. Lhe disse que estava apaixonado. Ele me disse que não podia fazer nada, pois não sentia o mesmo, pois continuava apaixonado pelo nosso amigo.
(Desde os 16 anos entrei num processo de auto-repressão e auto-anulação, virei um assexuado, apaixonar-me por alguém me permitiu sentir-me vivo).
Nesse tempo de paixão desenfreada aprendi a lidar com as minhas emoções e principalmente controlá-las sem precisar negá-las com ajuda de uma psicóloga. Aprendi a ler um poema e senti-lo e entendê-lo foras das regras literárias. Aprendi a escutar e sentir a emoção de uma música. Aprendi a escrever em primeira pessoa, esse talvez seja ganho maior conquistado com a terapia. Quando eu escrevia sobre mim, sempre escrevia em terceira pessoa; uma forma encontrada para reprimir minhas emoções. Tornei-me uma pessoa emotiva. Nos meses que seguiram convivi com uma dúvida constante, 'se ele gostava de outro por que ele estava sempre comigo? Eu era a pessoa quem ele sempre buscava quando estava perdido ou precisando de alguém para ouvi-lo. (ainda o faz) Passei um bom tempo tentando entender isso.
Vivemos juntos até outubro com as idas e vindas e sempre tentando por um fim na nossa “relação”, que nunca teve nome, ou formalidade alguma. Em outubro ele saiu da república, mas como tinha ido para uma próxima a minha dormia quase todas as noites comigo. Dois meses depois ele voltou para moramos juntos até fevereiro de 2013. Nesse tempo nos aproximamos mais ainda, vivíamos como um casal de namorados, embora ele deixasse claro que não sentia nada por mim. Eu já não sentia aquela paixão enlouquecedora, tinha um sentimento que não sei caracterizar, que surgiu da nossa convivência, uma preocupação mutua, um carinho suave e sublime, dormíamos na mesma cama sem precisa fazer sexo.
2013 -
Em Fevereiro de o pai do N.G morreu, ele viajou para o enterro e decidiu ficar com a mãe em Manaus. Até setembro de 2013 mantivemos contato por internet. A distância o fez ver que ele gostava de mim. Tentamos terminar nosso contanto para facilitar o esquecimento para ambos. Tínhamos um elemento a nosso favor, a distância. Todas as tentativas de contar o vínculo foram infrutíferas, sempre voltamos a nos falar. Em setembro ele disse que faria um trabalho voluntário no interior do Amazonas. Um tempo depois descobrir que essa ida a selva incluía um processo de auto anulação e de renúncia a sua orientação se sexual e tudo e todos que fizeram parte da vida dele durante os dois anos que ele se afirmou como gay, nesse pacote eu estava incluso. Fui varrido de sua vida de uma hora para outra, sem nenhuma explicação.
Não consigo entender como uma pessoa que teve um relacionamento de cinco anos com um primo na adolescência, na vida adulta apaixonou-se duas vezes por homens consegue acreditar que é possível modificar sua orientação sexual, além disso é uma pessoa esclarecida. Até Abril de 2014 não tive mais nenhuma notícia, me "joguei" por completo na vida, numa tentativa de esquecer ou bloquear qualquer lembrança que fizesse me lembrar do N.G Em Abril recebi um e-mail dele pedindo uma tentativa de contato sem nenhuma explicação que justificasse o silêncio dele por tanto tempo. Nesse ponto eu estava indiferente e descrente quanto a tudo, me tornei uma pessoa fria. Conversamos sobre amenidades por uma semana, até que não me contive e o questionei sobre o porquê dele ter dado as caras. Ele respondeu que por mais que ele tentou reprimir-se, era impossível. Eu interpretei essa atitude, como um sinal de que ele ainda gostava de mim de alguma maneira, isso foi o suficiente para eu alimentar inúmeras expectativas, mas o que eu não esperava era que isso me frustraria e mais tarde eu sofreria, como sofri no ano de 2012. Por mais que ele se reconheça como gay, ele disse que por causa da religião dele, nunca terá ter nenhuma relação homossexual.
Hoje, me sinto livre por conseguir escrever sobre isso sem sentir um aperto no peito.