Cento e oitenta questões e uma redação. Oito e nove de novembro, dois dias de prova. O Exame Nacional do Ensino Médio é muito mais que uma prova para acesso a universidades públicas e privadas no regime de bolsas. É um elemento em que preciso ter um bom rendimento para decidir meu destino incerto desde que desisti do meu antigo curso há aproximadamente cinco meses. Não que eu dependa de um curso superior para sobreviver, mas sempre desejei ter um. Teoricamente faz parte de uma escalada que você inicia na pré-escola. (Coisas de um sistema que te empurra pra isso) Cresci com a ideia que este é um elemento que propícia estabilidade financeira por toda a vida. Uma grande mentira desconstruída no primeiro ano na faculdade. O meu real desejo hoje por um curso superior, primeiramente é dar vazão a minha sede por conhecimento que sempre tive. Estudar para mim sempre foi um prazer. Esse talvez seja um dos motivos que me leve para um mestrado e doutorado e, como consequência disso a docência. Outro motivo é conquistar minha independência financeira.(Não suporto mais depender dos meus pais)
Nos últimos quatro anos passei por dois cursos superiores, ambos na mesma universidade. O meu primeiro curso foi uma licenciatura em química, que desisti pela simplificação de conteúdos. Segundo seus idealizadores um professor para o ensino fundamental e médio não necessita de conhecimentos aprofundados e complexos como um bacharel, condicionando os alunos apenas a prática docente em escolas, uma política do MEC para evitar o apagão profissional que acontecerá nos próximos anos; outro motivo pela desistência, foi a desvalorização da profissão professor no Brasil. Um operário com ensino médio ganha em torno de R$ 1.100 em Minas Gerais, um professor que passou quatro anos em um curso superior ganha míseros R$ 700,00. Não estou desmerecendo nenhuma profissão, mas é uma constatação óbvia diante da qualificação exigida para ser professor e operário.
O segundo curso foi Engenharia de Energias. Durante o tempo em que cursei vivi um momento pessoal conturbado, somado a nove meses de greve dos professores, uma estrutura insuficiente para um curso de tal complexidade (universidades novas têm dessas coisas), a falta de regulamentação do engenheiro de energias e as constantes mudanças na grade curriculares provocadas pela necessidade de reconhecimento do CREA/CONFEA, resultando em um curso completamente diferente do qual eu me inscrevi. Desisti, e não me arrependo. Se dizem que passamos boa parte de nossas vidas trabalhando, quero passá-las fazendo algo que eu gosto. Trabalhei como aprendiz num banco durante dois anos, nesse tempo convivi com pessoas que passaram mais de vinte anos exercendo profissões que nunca gostaram. E sem soberba alguma, não quero isso pra mim.
Concentrei tantas energias para passar no vestibular na primeira vez, que quando eu alcancei meu objetivo, me senti perdido. Eu tinha acabado de fazer 18 anos, não tinha vivido muita coisa na vida. Sempre fui muito mimado pelos meus pais, faziam e decidiam tudo por mim. Quando passei no vestibular e fui morar sozinho, me descobri, provei dos sabores e dissabores de ser eu mesmo. Construí e dei forma as bases da minha personalidade. Libertei-me de alguns demônios, senti a liberdade, e esse sentimento talvez seja um dos mais intensos e sublimes que provei. Os últimos quatro anos, foram os mais felizes vividos até hoje. Em meio a todas essas conquistas eu não me encontrei profissionalmente. Talvez o tenha feito, mas meus medos e incertezas cegaram-me
Todo meu insucesso nesse último curso me jogou num oceano de questionamentos que carrego até hoje. Não sei qual profissão quero seguir. Não sei em que eu daria certo como profissional. Não encontro nada que vá de encontro as minhas habilidades e gostos. Eu não esperava quando entrasse em um curso superior eu mergulharia em um oceano de incertezas profissionais, onde eu duvidaria constantemente das minhas capacidades intelectuais. Acho que faltou paixão.
Amo estudar, tenho um gosto apurado por química, me excita quase na mesma proporção que tenho pelas humanidades (Geografia, história e filosofia), essa dicotomia me pira. Alimenta a insegurança, que me faz temer as decisões que tomarei daqui a pouco meses, onde terei que escolher que carreira superior seguir. Temo não ser acertar na decisão que tomarei. Química, Eng. Ambiental, Geografia...
Certeza nunca terei e não vou me ater aos conselhos que dizem sou novo e isso é natural, mas eu não terei 22 anos eternamente. Espero sobrevier a isso, parece aquela fase do jogo que você demorar a passar, tenho medo desistir e nunca conseguir. Enquanto não encontro respostas, vou tentando.


























