Universo Paralelo
Marujo. - Me livrei do mal chamado Hornet.
Dominus -  Sério?
Marujo - Sim. Não Suporto!
Dominus - Estou há um mês sem isso.
Marujo - Eu acho que ativa ainda mais minha depressão intrínseca. Gostava no início.
Dominus - Eu queria muito frequentar lugares que rolassem um cara a cara, um jogo de olhares igual aqueles de filmes....




Aos 19 Dominus foi apresentado as salas de bate-papo. Achou o máximo! Agora podia driblar seu medo e se relacionar com caras que seguramente eram gays. Entrar em salas de bate-papo virou um hábito diário, praticado religiosamente no mesmo horário. O tempo passou, Dominus conheceu muitos caras, tinha uma lista enorme de amigos no msn, mas foi com poucos que a relação virtual se materializou. Dominus cansou-se dos bits, já não suportava mais as conversas vazias que nunca saiam do virtual; das buscas constantes em chats; da sensação de vazio após passar horas naquilo, que no começo foi sua redenção e que se tornara com o passar do tempo um de seus pesadelos. Aos 20, Dominus cansou-se das salas de bate-papo, aposentou o velho e conhecido chat. Comprou um smartphone e instalou todas as aplicações de relacionamento gay. Ficou maravilhado com o leque de possibilidades que a tecnologia lhe trazia. " -Viva a tecnologia!" Bradava admirado.Não demorou muito para que Dominus notasse que na essência, o novo se tratava do velho com uma nova roupagem.  E não tardou para que os velhos sintomas, frutos da vida virtual, aparecessem novamente.










12 de junho. 90 contatos na agenda do celular. 
18 de junho. 60 contatos na agenda do celular. ***  - 30
01 de julho. 80 contatos na agenda do celular.  + 20
15 de julho. 68 contatos na agenda do celular. -12
01 de Agosto. 78 contatos na agenda do celular.  + 10
20 de Agosto. 60 contatos na agenda do celular.  - 18


Cansei desse apagar e gravar contatos na agenda do meu celular.Cansei do mundo virtual!
Leia-se: Grindr,Hornet,Scruff,Manhunt,Badoo, etc. Apps de pregação e sites de relacionamento já me renderam ótimas transas, paixonites de uma noite ou uma semana, momentos doces e sublimes, amigos, péssimas transas, situações embaraçosas, engraçadas, propostas bizarras e por aí vai. No entanto, os sentimentos que reinaram nesse tempo que os utilizei foi o de vazio atrelado à ansiedade por uma nova mensagem, frustração, quando o cara parava de teclar comigo depois de trocarmos fotos (eu já fiz isso rsrs), decepção por conversas vazias que nunca saíram do virtual. Sem falar na indignação pela enxurrada de homofobia vomitada na descrição em muitos perfis. Por força das circunstâncias, passei os últimos 4 anos escravo do virtual. Me aceitei como gay aos 19, enquanto vivia em uma cidade do meio oeste paranaense, onde o meio mais fácil e quase único de conhecer gays, seja pra uma fast-foda ou um possível "namoro” - é a internet, nas suas mais variadas formas que citei acima (alguns preferem o zoológico municipal rsrs). Eu diria que 99% das “relações” que tive se deram por intermédio do virtual, num primeiro plano - só tenho dois episódios que se começaram fora do virtual, um é o M e o outro é foi um paraguaio, este último pode ser assunto para um possível post no futuro.

Poxa! Tenho 21 anos e não sei o que é um flerte.


















Raras são as músicas capazes de provocarem sensações profundas, quase indescritíveis em mim. Que me tirem das sensações comuns e me faça sentir as extraordinárias. Que mostrem que estou vivo. Até hoje apenas dois cantores com suas músicas foram capazes de provocar sensações profundas e indescritíveis em mim:  Florence and the Machine e Asaf Avidan.  Asaf Avidan é um cantor israelense, bonitinho, embora não tenha os traços semitas que me fazem suspirar, (detalhe sórdido esse último). O conheci escutando músicas aleatoriamente no youtube, o timbre da voz dele me remete ao timbre da voz da Janis Joplin. A primeira música que escute foi: "One day”. Até aí, nada espetacular. A segunda Música foi "Your Anchor". Essa sim, considero espetacular. Foi a segunda música na minha vida capaz de me lançar num frenesi - um êxtase indescritível e profundo, capaz de arrepiar e fazer emergir um pranto de alegria involuntário. Me apaixonei! Baixei a discografia completa.



One day - Asaf Avidan





Your anchor-Asaf Avidan




Diferent Pulses - Asaf Avidan




As únicas posições que tenho praticado nos últimos meses.









                                        Fim do dia

                                                A engrenagem anuncia.
                                                   O Fim do dia.
                                                            O Quarto escuro.
                                                                   O Teto mudo.
                                                                         O pensamento insistente.
                                                   O sentimento latente.
                                                         A resiliência se esvai.
                                                                O peito contrai.
                                                                      O corpo treme.
                                                                A alma geme.
                                                      A lágrima cai.






Choro convulsivamente feito uma criança. Choro convulsivamente por estar desfazendo-me de coisas que me fariam lembrá-lo. Choro por saber que tenho que me conformar em não tê-lo junto a mim. Choro por não ter sido amado como desejei. Choro por minha história encantada não ter tido um final feliz. 

Trouxe comigo para Minas algumas coisas do Negro Gato que não foram possíveis enviar quando ele foi embora, as quais prometi enviar muitas vezes, mas por falta de $ sempre adiei o envio. Hoje postarei nos correios as últimas coisas dele que ainda estão comigo, uma bíblia e um quadro dos Beatles em carvão - a bíblia ele quis que ficasse comigo, como um presente, mas não posso aceitar, não iria ter nenhuma utilidade e seria mais um motivo para lembrá-lo todas às vezes quando eu for tirar a poeira dos meus livros. Já tenho lembranças suficientes gravadas no peito e na alma. O que farei hoje nos correios pode parecer um ato simples às vistas de outros, mas estará carregado de emoções e sentimentos latentes e por mais que eu os queira mortos, insistem em permanecerem vivos.

 Passei toda a semana planejando este envio. Não esta sendo fácil, assim como não foi quando tive que enviar suas roupas, sapatos, cadernos e livros deixados pelo N.G na casa em que morávamos no sul há pouco mais de um ano atrás, quando seu pai faleceu e ele não pode voltar para buscar. À época foi um ritual semelhante à separação dos pertences de um familiar que morreu para doação após o enterro - demorei quase um mês para separar tudo e colocar em uma caixa e levar até os correios. Um mês chorando convulsivamente todas às vezes que tive de colocar algo dele dentro da caixa. Era como se eu estivesse colocando um pedaço de mim ali dentro. Quanto mais tempo demorava, mais tempo manter-me-ia próximo a qualquer objeto que recordava-o. Foi um autoflagelo necessário e importante para que eu seguisse em frente e superasse a ausência dele no meu quotidiano. Eu não o veria mais, ou não saberia quando o veria, e junto com ele estava indo todos as minhas idealizações do meu conto de fadas pessoal. Eu estava vivendo um momento de "certa plenitude com o N.G, a cisão foi muito dolorosa. Hoje sei que não o verei. Isto é fato decretado por ele, e estou tentando também decretar. Os últimos meses antes da morte do pai do N.G estávamos nos "dando bem", parecia que todo o pesadelo e sofrimento dos meses anteriores após me apaixonar por ele haviam passado. Morávamos sós naquela casa que foi a república e onde tudo começou.

Hoje faz exatos 17 dias que não falo com o Negro Gato, tenho sido forte e persistente na promessa de nunca mais lhe falar. Nunca é uma palavra muito forte pelo caráter imprevisível desta relação. Como mencionei em outro post, todas as tentativas de colocarmos um ponto final até agora não deram resultado, os pontos finais não foram pontos finais, mas cisões, as quais insistiam em se ramificar e integrar-se novamente. Não posso permitir que ele me trate como um brinquedo que esteja sempre ao alcance em uma prateleira, que brinque o quanto queira e quando "enjoe" devolva ao seu lugar. 
Não posso permitir que minha vida seja manipulada dessa forma por alguém que incapaz é de se posicionar como um ser humano autônomo, que tenha bases imutáveis na sua personalidade, que não flutue ao léu das vontades de quem o cerca. Eu escolhi não querer mais essa relação unilateral. Em dias frios e cinzentos como hoje cumprir essa promessa é algo sobre-humano, a saudade de coisas que eu não vivi rondam meu pensamento insistentemente. Nessa madrugada tive um surto, uma vontade incontrolável de fazer contato e rastejar pela atenção dele, como fiz costumeiramente por muito tempo, mas serei forte. I can do it!


Não sei se a conversa de agora a noite será a última que terei com o Negro Gato, se este será mesmo o FIM. Fim que já decretamos inúmeras vezes. 


Continuamos a conversa de ontem - continuação motivada pela frase de status que coloquei no meu perfil do Whatsapp, "aceita que dói menos"- segundo ele foi uma indireta para ele, mas não foi, era apenas uma frase motivacional carregada de significados porque eu precisava de um ponto de partida para começar o dia, uma forma de  "aliviar" o sofrimento do dia anterior. Já disse ao N.G inúmeras vezes que meu mundo não gira ao redor do mundo dele, embora sofra com sua força gravitacional. Considero que a frase cai como uma luva para ele, pois por motivos religiosos o N.G optou por não praticar sua homossexualidade, e aceitar sua condição homossexual doerá menos, evitará uma série de sofrimentos futuros.

A minha dificuldade para entender a renúncia do N.G à sua homossexualidade foi motivo para nosso último atrito, o saturei com inúmeras perguntas relacionadas à sua renúncia, e diante da sua negação em me dá respostas, misturado à minha carga de sentimentos reprimidos por ele, eu não pude manter diálogos que não levassem sempre a esse assunto. Agora, vejo essa minha insistência como uma busca frenética por elementos que me deem esperança para o meu "sentimento", o amor que sinto por ele. Esperança que poderia demonstrar um futuro sem o sofrimento do presente, onde meu conto de fadas pessoal se torne realidade. É uma atitude egoísta, mas sou humano, estou fadado a sentir sentimentos "mesquinhos" e confesso, que estou cansado de maquiar isso em mim, de fazer papel de bonzinho, de não me permitir senti-los. Fui ensinado quando criança que os humanos devem ter apenas sentimentos nobres, mas a vida me mostrou o contrário, mostrou o misto de nobreza e podridão que nos constitui.

Não sei lidar com essa situação. A renúncia dele à sua condição homossexual é o mesmo que soterrar qualquer esperança que eu posso ter de um futuro relacionamento, esperança que eu tento matar há muito tempo. Parafraseando um professor de filosofia do ensino médio, que sempre dizia em suas aulas que a esperança não é a última que tem que morrer, mas a primeira. Mas percebo que isso não se aplica quando se trata de questões sentimentais, porque é difícil matar a esperança e seguir adiante. Perdido no futuro incerto dessa "relação", a velha e conhecida incerteza mostra sua cara e não sei lidar com ela. O que me resta é seguir em frente e conviver com ela, na espera de de dias melhores providos pelo "tempo". Todo o sentimento de Bethânia é a síntese poética do "meu momento".
  
        




Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.
Essa sensação de dormência invade meu corpo outra vez, mais uma vez sinto um aperto no peito, meu estômago revira. Não posso dormir, meu cérebro não para, tenta a todo custo processar o que escutei horas atrás. Palavras que tornam uma série de questionamentos anteriores claros. Um emaranhado de expectativas que criei desmorona novamente. Já estou acostumado a essa sensação, já a senti inúmeras outras vezes, durante esses três anos de relação conturbada e indefinida com o Negro Gato. Ele me disse que nunca seremos nada, que nunca iremos transpor a relação presencial que tivemos durante pouco mais de um ano quando dividíamos quarto em uma república. 'Não há motivos para um reencontro'. O questionei se esse nunca era motivado pela religião dele. Ele disse que sim. Retorno ao ponto inicial, se a máxima que o tempo cura tudo for verdade, espero que não tarde muito, já se vão dois anos que espero desesperadamente o tempo agir.