Universo Paralelo
Hoje faz exatos 17 dias que não falo com o Negro Gato, tenho sido forte e persistente na promessa de nunca mais lhe falar. Nunca é uma palavra muito forte pelo caráter imprevisível desta relação. Como mencionei em outro post, todas as tentativas de colocarmos um ponto final até agora não deram resultado, os pontos finais não foram pontos finais, mas cisões, as quais insistiam em se ramificar e integrar-se novamente. Não posso permitir que ele me trate como um brinquedo que esteja sempre ao alcance em uma prateleira, que brinque o quanto queira e quando "enjoe" devolva ao seu lugar. 
Não posso permitir que minha vida seja manipulada dessa forma por alguém que incapaz é de se posicionar como um ser humano autônomo, que tenha bases imutáveis na sua personalidade, que não flutue ao léu das vontades de quem o cerca. Eu escolhi não querer mais essa relação unilateral. Em dias frios e cinzentos como hoje cumprir essa promessa é algo sobre-humano, a saudade de coisas que eu não vivi rondam meu pensamento insistentemente. Nessa madrugada tive um surto, uma vontade incontrolável de fazer contato e rastejar pela atenção dele, como fiz costumeiramente por muito tempo, mas serei forte. I can do it!


Não sei se a conversa de agora a noite será a última que terei com o Negro Gato, se este será mesmo o FIM. Fim que já decretamos inúmeras vezes. 


Continuamos a conversa de ontem - continuação motivada pela frase de status que coloquei no meu perfil do Whatsapp, "aceita que dói menos"- segundo ele foi uma indireta para ele, mas não foi, era apenas uma frase motivacional carregada de significados porque eu precisava de um ponto de partida para começar o dia, uma forma de  "aliviar" o sofrimento do dia anterior. Já disse ao N.G inúmeras vezes que meu mundo não gira ao redor do mundo dele, embora sofra com sua força gravitacional. Considero que a frase cai como uma luva para ele, pois por motivos religiosos o N.G optou por não praticar sua homossexualidade, e aceitar sua condição homossexual doerá menos, evitará uma série de sofrimentos futuros.

A minha dificuldade para entender a renúncia do N.G à sua homossexualidade foi motivo para nosso último atrito, o saturei com inúmeras perguntas relacionadas à sua renúncia, e diante da sua negação em me dá respostas, misturado à minha carga de sentimentos reprimidos por ele, eu não pude manter diálogos que não levassem sempre a esse assunto. Agora, vejo essa minha insistência como uma busca frenética por elementos que me deem esperança para o meu "sentimento", o amor que sinto por ele. Esperança que poderia demonstrar um futuro sem o sofrimento do presente, onde meu conto de fadas pessoal se torne realidade. É uma atitude egoísta, mas sou humano, estou fadado a sentir sentimentos "mesquinhos" e confesso, que estou cansado de maquiar isso em mim, de fazer papel de bonzinho, de não me permitir senti-los. Fui ensinado quando criança que os humanos devem ter apenas sentimentos nobres, mas a vida me mostrou o contrário, mostrou o misto de nobreza e podridão que nos constitui.

Não sei lidar com essa situação. A renúncia dele à sua condição homossexual é o mesmo que soterrar qualquer esperança que eu posso ter de um futuro relacionamento, esperança que eu tento matar há muito tempo. Parafraseando um professor de filosofia do ensino médio, que sempre dizia em suas aulas que a esperança não é a última que tem que morrer, mas a primeira. Mas percebo que isso não se aplica quando se trata de questões sentimentais, porque é difícil matar a esperança e seguir adiante. Perdido no futuro incerto dessa "relação", a velha e conhecida incerteza mostra sua cara e não sei lidar com ela. O que me resta é seguir em frente e conviver com ela, na espera de de dias melhores providos pelo "tempo". Todo o sentimento de Bethânia é a síntese poética do "meu momento".
  
        




Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.
Essa sensação de dormência invade meu corpo outra vez, mais uma vez sinto um aperto no peito, meu estômago revira. Não posso dormir, meu cérebro não para, tenta a todo custo processar o que escutei horas atrás. Palavras que tornam uma série de questionamentos anteriores claros. Um emaranhado de expectativas que criei desmorona novamente. Já estou acostumado a essa sensação, já a senti inúmeras outras vezes, durante esses três anos de relação conturbada e indefinida com o Negro Gato. Ele me disse que nunca seremos nada, que nunca iremos transpor a relação presencial que tivemos durante pouco mais de um ano quando dividíamos quarto em uma república. 'Não há motivos para um reencontro'. O questionei se esse nunca era motivado pela religião dele. Ele disse que sim. Retorno ao ponto inicial, se a máxima que o tempo cura tudo for verdade, espero que não tarde muito, já se vão dois anos que espero desesperadamente o tempo agir.